“Quero pedir desculpa à família da Ana Rita e também à minha família. Ninguém merecia passar por isto”, começou por dizer David Marinho, de 25 anos, ao grupo de juízes que o julga no Tribunal de Matosinhos.
O arguido, de nacionalidade brasileira, disse que saiu do trabalho numa moagem de cereais em Custóias e dirigiu-se a casa da ex-namorada, entrando com uma chave que sabia estar escondida. Quando ela ouviu o chuveiro, percebeu que não estava sozinha.
David Marinho afirmou então que ficou “surpreendido” com este facto e, por isso, começou a filmar discretamente a sua ex-companheira a tomar banho com outro homem, alegando que queria “provas de que ela o estava a trair”. Segundo contou, continuou a gravar mesmo quando o casal ia para o quarto e fazia sexo, mas nunca transmitiu os vídeos ao vivo, limitando-se a enviá-los posteriormente para a mãe.
“O que mais me consumiu não foi a traição. Foram todos aqueles anos que passei com ela, em que mostrei constantemente tudo da minha vida. Deixei tudo na minha vida, meus objetivos, para fazer o que ela queria. (…) Isso estava me corroendo, o que eu estava vendo, ouvindo. Não podia sair de casa, simplesmente não podia sair”, disse.
Quando questionado pelo juiz presidente se se muniu imediatamente de facas, afirmou que não. “Nada muda os fatos. Já estou pagando por tudo que fiz. Sei que não posso voltar atrás”, continuou, chorando, admitindo que havia perdido o controle.
“Eu não o conhecia. Não sabia quem ele era. Ele estava cheio de raiva. Eu só queria machucar ele”, relatou David Marinho, explicando que, após esfaquear o outro homem, acabou agredindo a ex-namorada. “Ela sempre dizia para eu ter calma, que gostava de mim, que eu não era nada do que tinha visto. Ela continuou falando e eu perdi o controle de novo, não queria que ela falasse mais nada, sabia que era tudo mentira, via o quanto ela me enganava o tempo todo”, acrescentou, revelando que planejava pedi-la em casamento no Brasil e que, apesar dela não gostar muito de crianças, ele sonhava em ter filhos com ela.
O arguido explicou ainda que a sua intenção, após esfaquear as vítimas, era pedir socorro, mas não sabia o número correto. O presidente do coletivo questionou porque não utilizou Google, ChatGPT ou Gemini para descobrir o contacto de emergência (112).
Ministério Público fala em plano para “liquidar”
Segundo a acusação, a que o JN teve acesso, David Marinho manteve relacionamento com Ana Rita Dionísio, funcionária do McDonald’s do Norteshopping, desde julho de 2022 até junho do ano passado. Após o rompimento, o réu passou a contatá-la “constantemente via e-mail e redes sociais, solicitando que ela reatasse o relacionamento”. “Convencido de que a mulher ofendida mantinha uma relação amorosa com outro homem”, David formulou, a dada altura, “um plano para liquidar ambos quando os apanhasse juntos”, considera o Ministério Público (MP).
Assim, diz a acusação, o arguido dirigiu-se a casa do ofendido, em São Mamede de Infesta, no dia 4 de agosto de 2025, pelas 19 horas. Depois, usando uma chave que estava escondida, como sempre, na caixa eléctrica, entrou no espaço sem autorização. “Lá dentro, o arguido percebeu que o ofendido estava acompanhado do ofendido Guilherme e que ambos estavam nus e a tomar banho”, descreve o procurador do MP, acrescentando que, “nesse momento, o arguido sacou o telemóvel e começou a filmar os ofendidos”. Depois, o casal dirigiu-se ao quarto e iniciou relações sexuais, “continuando o arguido a filmá-las”.
A acusação conta que, cerca de 20 minutos depois, o arguido foi à cozinha e pegou em duas facas, com mais de 20 centímetros. Depois, “ele se despiu e ficou só de cueca, segurando uma das facas e colocando a outra na cueca”. Após entrar na sala, David Marinho desferiu vários golpes, ora na ex-namorada, ora em Guilherme. Este último, apesar de ferido, conseguiu refugiar-se no banheiro e escapou com vida do ataque. Levado ao Hospital São João, ele passou por uma cirurgia de emergência e sobreviveu. Ana Rita sofreu pelo menos 21 golpes em diversas zonas do corpo e morreu.
O arguido apoderou-se então de dois cartões bancários da vítima e do seu Citroën C1 e fugiu. Conduziu o carro, sem carta de condução, de Matosinhos para Lisboa. Foi intercetado e detido na Avenida Marechal Craveiro Lopes, perto do Aeroporto de Lisboa, por inspetores da Polícia Judiciária do Porto, que lhe apreenderam o telemóvel, a roupa e o calçado com vestígios de sangue, um cabo carregador USB e cartões bancários.

