Como reconstruir a identidade de um clube histórico num dos momentos mais difíceis da sua história centenária? Graças a uma sólida parceria de dez anos com um sócio do clube, o ano era 2023 quando José Luís Santos assumiu o desafio de liderar um profundo projeto de reestruturação. Para ele, o Leça Futebol Clube é um gigante adormecido e com elevado potencial. Hoje vamos descobrir a visão e estratégia por trás da nova alma dos leceiros.
Como chegou ao Leça FC?
A ligação a Leça surge de forma indireta, mas acaba por ser construída ao longo de vários anos. O meu braço direito, André da Silva, já trabalhou no clube e teve uma carreira relevante nas camadas jovens, sendo alguém com quem trabalho há quase uma década. Foi com ele que desenvolvi uma paixão e um projeto comum ligado ao futebol, muito antes de haver qualquer ligação formal a um clube.
Este projeto amadureceu com o tempo e posteriormente surgiu o contato do clube. Através do antigo presidente, Sr. Pinho e Pedro Vieira, fomos convidados para uma reunião onde nos foi apresentado o estado de Leça. Já existia interesse e curiosidade mútuos sobre quem éramos e o que poderíamos trazer.
Foi nesse momento que conheci verdadeiramente o clube. E percebi imediatamente que aqui havia uma oportunidade diferente: um clube histórico, com uma identidade forte, mas num momento de fragilidade competitiva, tendo acabado de ser despromovido à 5.ª divisão.
Mais do que isso, era um clube com clara margem de crescimento — o que chamo de “gigante adormecido”. Localização privilegiada, proximidade do Porto, potencial desportivo e estrutural, mas subaproveitado. Era exactamente este tipo de projecto que procurava: algo que ainda não estivesse estabilizado ou fechado, mas com espaço real para construir.
O que o levou a avançar com o projeto?
O que mais me fez avançar foi a combinação entre potencial e abertura humana. Ou seja, não era só o clube em si, mas as pessoas que o lideravam naquela época.
Havia um desejo claro de encontrar um parceiro sério e de longo prazo, e não apenas alguém que investisse dinheiro e desaparecesse. E esta é uma das grandes dificuldades do futebol: muitos clubes precisam de investimento, mas não estão preparados para dividir o controle ou construir juntos.
Aqui aconteceu o contrário. Houve uma abertura genuína para a construção de um projeto conjunto, com liberdade para implementar ideias, estruturar o futebol e profissionalizar áreas que até então não estavam organizadas desta forma.
Isso criou uma base essencial de confiança. Sem esta confiança nenhum projeto desta natureza funciona.
Qual a diferença entre o presidente da SAD e o presidente do clube?
A principal diferença está na natureza da gestão.
A SAD é responsável pela gestão do futebol sénior como atividade profissional e empresarial. Ou seja, tudo o que diz respeito à equipa principal, recrutamento de jogadores, equipa técnica, rendimento e gestão desportiva.
O clube mantém sua essência histórica e estrutural: formação, modalidades, patrimônio, identidade e ligação à comunidade.
São papéis diferentes, mas profundamente complementares. O problema surge quando essas fronteiras começam a ser ultrapassadas.
No nosso caso, sempre houve uma lógica muito clara: só existe um Leça. Não existe “clube contra a SAD”, nem duas entidades competindo entre si. Isto foi essencial para evitar conflitos e garantir a estabilidade.
Até tivemos experiências anteriores no clube que não correram bem, com projetos da SAD que falharam e deixaram alguma desconfiança. Portanto, foi fundamental reconstruir essa confiança com tempo, seriedade e consistência.
Que realidade financeira encontrou na SAD?
A realidade que encontrei foi bastante complexa e delicada.
Na prática, era difícil separar o que era clube e o que era SAD, porque devido a incumprimentos anteriores, o clube acabou por assumir também responsabilidades pela gestão da SAD. Isto criou uma situação em que as contas estavam profundamente interligadas.
O clube passava por sérias dificuldades, com penhoras e liminares em andamento, e a situação era tão frágil que, antes mesmo da entrada ser totalmente formalizada, foi necessário intervir financeiramente para evitar um cenário mais grave, que poderia levar à falência.
Na altura, caso algumas destas situações avançassem, o clube poderia mesmo perder a capacidade de inscrição competitiva, o que teria consequências gravíssimas.
Hoje, felizmente, a situação se estabilizou. Existe ainda uma pesada ficha financeira, nomeadamente dívidas à Segurança Social e ao Fisco, mas já não é uma situação descontrolada. Tornou-se uma situação administrável e sob monitoramento permanente.
Qual é o modelo de sustentabilidade da SAD?
O nosso modelo assenta na profissionalização e no investimento sustentado.
Contamos com uma estrutura totalmente profissionalizada, com diretorias gerais, técnicas, comunicação, marketing e performance. Acreditamos que, para crescer, o clube não pode depender apenas do desempenho desportivo imediato.
Portanto, grande parte do investimento não está apenas no plantel, mas em tudo o que o rodeia: pessoas, infraestruturas, scouting e condições de trabalho.
Temos parcerias externas, nomeadamente ao nível do treino e do ginásio, e trabalhamos constantemente para melhorar estas condições.
Nossa visão não é emocional nem reativa. Evitamos decisões tomadas apenas por resultados de curto prazo, como contratar jogadores no “desespero” para salvar temporadas. Isto cria instabilidade e compromete o futuro.
Preferimos um modelo sustentável, onde o clube cresça de forma estruturada, valorizando os jogadores e criando ativos. O objetivo é simples: agregar valor dentro e fora do campo.
Que tipo de esquadrão você pretende construir?
Procuramos sempre um equilíbrio muito claro.
Um elenco não pode ser homogêneo. Se você só tem jogadores jovens, falta experiência. Se você só tem jogadores experientes, falta intensidade e futuro. O equilíbrio é essencial.
Trabalhamos com uma média etária equilibrada, onde convivem jogadores em início de carreira, atletas em fase de afirmação e jogadores com experiência consolidada.
Este equilíbrio permite estabilidade emocional dentro do grupo, principalmente em momentos de maior pressão competitiva.
Também valorizamos diferentes perfis: players com potencial de crescimento, outros com impacto imediato e alguns com perfil de liderança.
Uma possível promoção à Liga 3 altera o planeamento da SAD?
Não muda estruturalmente.
Nosso modelo sempre foi construído pensando um passo à frente. Ou seja, não trabalhamos apenas pelo campeonato que disputamos, mas pensando nas exigências do próximo nível.
Do ponto de vista estrutural, o clube já está preparado para disputar a Liga 3. Não seria necessário reinventar o projeto.
Na verdade, a subida poderá até facilitar alguns processos, nomeadamente na captação de jogadores, porque o contexto competitivo torna-se mais atrativo e permite reduzir algumas dificuldades de recrutamento.
Em termos financeiros também não esperamos uma diferença radical, porque muitas vezes é necessário investir para convencer os jogadores a virem para o Campeonato Português.
Qual foi a maior transformação desde 2023?
O maior orgulho não está apenas nas infra-estruturas ou no crescimento desportivo, mas sobretudo na mudança de percepção do clube.
Quando chegámos, o Leça era um clube com identidade, mas com alguma perda de orgulho e ligação emocional por parte da comunidade.
Hoje isso mudou completamente. As pessoas voltaram a dizer com orgulho que são de Leça. As crianças levam as camisas do clube para a escola. O clube foi mais uma vez respeitado.
Esta transformação cultural e emocional é, para mim, o maior sucesso de todos.
Mensagem final aos fãs
A mensagem é de continuidade e confiança.
Sabemos que o futebol vive de resultados e cobranças, mas o caminho não pode ser avaliado apenas por vitórias ou derrotas imediatas.
O projeto está sendo construído no médio e longo prazo e terá altos e baixos. O importante é manter o apoio, acreditar até o fim e não abandonar o clube nos momentos ruins.
A energia da torcida é fundamental e chega diretamente ao campo. Por isso, mais do que nunca, precisamos desta ligação forte com Leça.

