O artista Armando Alves (1935–2026), figura incontornável da arte contemporânea portuguesa e personalidade profundamente ligada ao concelho de Matosinhos, onde viveu e desenvolveu grande parte da sua obra ao longo de várias décadas, faleceu ontem.
O percurso de Armando Alves em Matosinhos foi particularmente marcante, com um significativo contributo para o Museu Quinta de Santiago, em Leça da Palmeira, onde desenvolveu importante obra gráfica e artística. Foi autor de inúmeros projetos editoriais, responsável pela conceção gráfica de catálogos e livros, bem como criador de cartazes emblemáticos das Festas do Senhor de Matosinhos. A sua intervenção no espaço público e a participação em exposições individuais e colectivas reforçaram o seu papel na dinamização cultural do concelho.
Destacam-se, entre outros, a sua presença na Galeria Municipal de Matosinhos, com a exposição “A Coleção da Câmara está a crescer” (2005), e a exposição de homenagem ao poeta Eugénio de Andrade, intitulada “Onze Esculturas para Eugénio de Andrade”, no ano seguinte.
Nascido em Estremoz em 1935, Armando José Ruivo Alves iniciou a sua formação artística na Escola de Artes Decorativas António Arroio e prosseguiu os estudos em Pintura na Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP), onde concluiu o curso em 1962 com nota máxima de vinte valores.
Após a licenciatura, integrou o corpo docente da ESBAP como Professor Auxiliar, sendo pioneiro na introdução do ensino das Artes Gráficas. Em 1963 foi um dos fundadores da Cooperativa Árvore, estrutura fundamental na promoção das artes visuais em Portugal.
Bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, viajou por vários países europeus na década de 1960, iniciando então a sua actividade expositiva individual. Em 1968, juntamente com Ângelo de Sousa, José Rodrigues e Jorge Pinheiro, fundou o grupo Os Quatro Vintes, que expôs em cidades como Porto, Lisboa e Paris até finais da década de 1970.
A partir de 1973 dedicou-se integralmente às Artes Gráficas, área na qual se consolidou como pioneiro e referência nacional. No seu ateliê, localizado na Rua Brito Capelo, desenvolveu uma vasta produção que incluiu direção gráfica de obras literárias, cartazes culturais e publicitários, além de materiais para eventos diversos.
Armando Alves esteve também ligado ao Lugar do Desenho – Fundação Júlio Resende, desde a sua criação em 1993, participando em exposições internacionais entre 1997 e 1999, nomeadamente no Brasil, Chile, Cabo Verde e Moçambique.
Como ilustrador, artista gráfico, designer e pintor — com evolução do neorrealismo ao abstracionismo — atuou também como consultor artístico e curador. A sua obra integra coleções de diversas instituições, como a Câmara Municipal de Matosinhos e o Museu Nacional Soares dos Reis.
Ao longo da sua carreira foi distinguido com diversos prémios e reconhecimentos, destacando-se a atribuição do grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito, atribuído pelo então Presidente da República Aníbal Cavaco Silva, nas comemorações do 10 de Junho de 2006, realizadas na Alfândega do Porto.
A Câmara Municipal de Matosinhos manifesta o seu profundo pesar pela perda de um dos nomes mais importantes da cultura portuguesa, cuja obra e legado permanecerão como património incontornável da identidade artística do concelho e do país.

